Por Leandro Augusto
A vitória do Barcelona sobre o Santos, domingo, em Yokohama, não serviu para apontar qual é o número 1 do mundo. Afinal, independentemente de quem conquistasse o troféu dado pela Fifa, já era sabido por todos que a equipe catalã é a melhor do planeta. O resultado de uma partida não mudaria isso, mas o placar dilatado – 4 a 0 – amplificou o domínio de um estilo de jogo que ninguém consegue copiar e comprovou a péssima preparação do Santos para o Mundial.
Muricy Ramalho conquistou o status de melhor técnico do futebol brasileiro ao ganhar três títulos consecutivos do Campeonato Brasileiro pelo São Paulo, entre 2006 e 2008. A série vitoriosa foi interrompida no ano seguinte, mas o treinador voltou a vencer o torneio em 2010, pelo Fluminense.
Meses antes desse título, o Santos fez história no futebol brasileiro. E não foi só pelas conquistas da Copa do Brasil e do Campeonato Paulista, mas, principalmente pelo estilo de jogo ultra-ofensivo da equipe então dirigida por Dorival Júnior. Arouca, Wesley, Paulo Henrique Ganso, Neymar, André e Robinho formaram um sexteto poderoso de um time que invariavelmente goleava e também sofria muitos gols. Acima de tudo, ali estava o estilo dos melhores times da história do clube.
Jogadores saíram, Dorival perdeu o emprego, Adílson Batista foi um fiasco, o Santos fez um início de Libertadores medíocre e Muricy saiu do Fluminense reclamando de ratos. Então, Laor decidiu apostar no treinador mais pragmático e vencedor dos últimos anos no Brasil.
Deu certo. O Santos faturou o título da Libertadores, apostando em uma versão 2.0 do Muricybol. Time retrancado, com defesa segura e meio-de-campo muito forte, e aposta nos contra-ataques e em jogadas de bola parada. Além disso, o time contava com Neymar no melhor momento da sua carreira.
Desde então, assim como sempre acontece com todos os times do País que conquistam a Libertadores, o título mundial se tornou obsessão. O Campeonato Brasileiro foi praticamente abandonado, mas, como se viu já diante do Kashiwa Reysol, não foi utilizado como preparação. Assim, o Muricybol foi massacrado pelo Barcelona.
A escalação de três zagueiros foi o principal erro do treinador no domingo. Somado com a postura do Santos, deixou o trabalho do time catalão ainda mais fácil. Afinal, o mais correto para o Muricybol seria concentrar a marcação no meio-de-campo. Como não fez, viu o Barcelona passear na sua defesa, com o talento e entrosamento de seus jogadores.
A estratégia do Barcelona de Guardiola é transformar o campo em uma mesa de pebolim e tirar o adversário de campo. Para que isso funcione, há trocas de passes em velocidade, deslocamento constante e marcação cerrada já no campo de ataque. E não é preciso apelar para jogadas aéreas, principal arma do Muricybol.
O Barcelona fica enorme tempo com a bola, o que torna natural o surgimento das falhas na defesa adversária, como aconteceu nos dois primeiros gols da partida. Se o oponente não tem a bola, o time catalão está com a meta protegida.
O talento individual também é decisivo para o sucesso do Barcelona. É impossível repetir o que esse time faz porque nenhum outro do mundo conta com Iniesta, Messi e Xavi. É do argentino que saem as principais jogadas individuais, mas sem firulas e sempre em direção ao gol. E só acontecem quando a paciente troca de passes já deixou o adversário tonto.
A aplicação tática do Barcelona impressiona. Baixinhos, que trocam passes curtos em velocidade e não param enquanto não encontram brechas na defesa adversária. Nessa estratégia, não há improviso, mas também não há risco. É um time que leva o conceito de esporte coletivo ao seu limite.
Já o Santos, que sofreu com erros individuais, não conseguiu fazer um jogo coletivo, o que foi exposto com a atuação apagada de Neymar, sempre acostumado a salvar o time. O meio-de-campo ajudou pouco na marcação, o que sobrecarregou os limitados defensores.
Ao contrário do Barcelona, que tem todos os seus jogadores combatendo o adversário, o Santos tinha Borges e Paulo Henrique Ganso andando em campo. Quando os atacantes tentaram marcar a saída de bola, os meio-campistas não os acompanharam. Assim, a equipe deixou muitos espaços ao time catalão.
Restou ao Barcelona todo o espaço possível para praticar a sua filosofia de futebol. Logo diante do técnico pragmático, que declarou certa vez que quem queria ver espetáculo devia ir ao teatro. E exatamente contra o Santos, de Pelé, o maior jogador da história do futebol.
O que o Barcelona fez diante do Santos, e tem realizado seguidamente, é humilhar o culto ao futebol medíocre, mas, de algum modo, vencedor. O time catalão entra para a história subvertendo essa lógica ao mostrar que o futebol pode ser lúdico e prazeroso.
A derrota pode acontecer, como diante Inter de Milão na Liga dos Campeões 2009/2010, mas é um detalhe. Afinal, com esse estilo, a vitória está sempre mais próxima. E a forma como é conquistada a torna mais bonita.





