Pitacos sobre ‘Jogo de Cena’

Segunda-feira, Dezembro 17, 2007

Eduardo Coutinho avacalhou as minhas listinhas de final de ano. Já estava programado: Santiago, do João Moreira Salles, como melhor documentário de 2007. Agora, serei obrigado a alterá-la.

“Jogo de Cena” tem o intuito de discutir a fronteira que separa realidade e ficção. Mas o que poderia ser uma encenação repetitiva torna-se uma emocionante experimentação. Além de deixar o público com vários questionamentos.

Os relatos femininos sobre afetividade familiar (quase todos) são contados, duas vezes, em um cenários de cadeiras de um teatro vazio. Significativo, apesar de ser um clichê ultrapassado.

Ao mesclar atrizes famosas com desconhecidas, Coutinho confunde o espectador que se questiona sobre qual dos depoimentos é o ‘real’. E até que ponto é possível garantir que as mulheres que contam seus relatos não estejam inventando? É essa dúvida que é o caminho entre ficção e realidade.

Coutinho também entra em cena. Ele repete as perguntas para as atrizes com a mesma curiosidade que entrevistou as personagens da história.

E Marília Pêra não se atém a interpretar e explica com os atores ‘fazem’ para chorar. Seria a ‘representatividade ficcional da ficção’?

Além disso, Coutinho apresenta outra questão. Ele levanta como funciona o processo de narração e quais são seus elementos típicos, as técnicas adotadas. Seja através de uma atriz consagrada ou de uma popular.

A cena final do filme, que lembra a interpretação de “My Way” em “Edifício Master”, emociona. Mas creio que a preocupação principal de Coutinho é colocar mais um questionamento na cabeça da platéia. Ou qual seria o motivo do retorno da ‘personagem’ a tela?

Mas o que poucos tem falado é que em ‘Jogo de Cena”, Coutinho também se desconstrói ao mostrar, como não tinha feito em nenhum filme anterior, o seu processo de montagem e o processo de singularidade que ele sempre busca construir em seus documentários. É, também por isso, uma obra-prima. Pra ser vista mais de uma vez.

 

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